Leitura Obrigatória com o Professor Ajosé1150


30/09/2005


O Boca do Inferno

O misterioso poeta Gregório de Matos Guerra é um pedaço importante da história do Brasil e da literatura brasileira. Filho de uma rica família da capital baiana, Gregório, que nasceu em 1633, foi o poeta que cantou as musas, as mulatas e as freirinhas brasileiras.

Escrito por Ajosé1150 às 22h53
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Gregório de Matos no Cinema

  Gregório de Matos, conhecido na Bahia do século 17 pelo apelido Boca do Inferno — pela acidez de suas críticas à sociedade da época — ganhou cinebiografia pouco convencional. A diretora Ana Carolina, que já fez Das Tripas Coração, Sonho de Valsa e Amélia, pinçou alguns textos de Gregório e os dramatizou. ‘‘Ele é avassalador, tem nossa identidade entranhada em cada texto’’, disse Ana Carolina ao Correio, por telefone.

  Ela se declara leitora assídua e antiga dos escritos de Gregório de Matos. ‘‘Senão eu não conseguiria fazer o filme com tanta naturalidade’’, enfatiza a cineasta. O filme é Gregório de Matos, que estréia hoje, às 19h, no Cine Brasília. A cineasta explica: o poeta, que viveu entre 1636 e 1696, tinha várias facetas, desde o erótico até o excluído social, o atormentado e o cronista de seu tempo. Incomodava muita gente, por isso foi mandado de Portugal para a Bahia.

  Para dar vida e voz à picardia do Boca do Inferno, Ana Carolina escolheu um não-ator, o poeta baiano Wally Salomão. ‘‘Não tinha um ator que fizesse o Gregório com a veemência de Wally’’, explica a diretora. O poeta foi meio arredio, à primeira vista, ao convite inusitado. Depois aceitou.

  Aceitaram também a empreitada outros ‘‘não-atores’’. Como a apresentadora Marilia Gabriela, que faz o papel de uma freira. Ou a cantora baiana Virgínia Rodrigues, que faz uma mulher do povo e solta o vozeirão no filme. Completam o elenco principal as atrizes Ruth Escobar e Guida Vianna.

  O filme foi rodado em 18 dias, em alguns becos do Rio de Janeiro e em dois fortes em Niterói, na entrada da Baía de Guanabara. O custo foi muito baixo, cerca de R$ 300 mil. Ana Carolina diz que a rapidez e o baixo orçamento foram possíveis graças a uma equipe pequena e ágil, que trabalha com ela há muitos anos.

  Gregório de Matos já estreou em Salvador, São Paulo e Belo Horizonte. Em outubro, chega ao Rio de Janeiro. Mas a pretensão é levar o filme ao Festival de Berlim. ‘‘Ele é a cara de festivais internacionais’’, anima-se a cineasta. Ela admite várias citações ‘‘glauberianas’’ nos 70 minutos da fita e finaliza: se estivesse vivo, Glauber seria o melhor Gregório que Ana Carolina teria nas mãos. (Cláudio Ferreira)

Escrito por Ajosé1150 às 18h54
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Gregório de Matos - Biografia

          Gregório de Matos é considerado o primeiro poeta brasileiro. Porém, nenhuma das obras do "Boca do Inferno" - como ficou conhecido graças ao estilo satírico e irreverente - foi publicada durante a sua vida, em teoria por problemas de relacionamento com a imprensa da época. Seus manuscritos foram conservados e publicados em pleno movimento Modernista, de 1922 a 1933. Há, entretanto, muitas dúvidas sobre a real autoria de muitos dos poemas que lhe são atribuídos.

Nascido em uma família rica, estudou direito na faculdade de Coimbra, exercendo em Portugal muitos cargos na magistratura. Voltou ao Brasil depois de perder a esposa, passando a viver de forma desregrada. Dirigiu, então, cruel ofensiva ao clero, à colônia lusa e aos negociantes através de seus versos.

Foi preso e deportado para Angola. Voltou ao Brasil já doente para morar no estado de Pernambuco, cujo governo permitiu sua permanência sob a condição de não mais escrever seus poemas. Lá viveu até falecer, aos 62 anos, em 1695.

A obra de Gregório de Matos serve para fazermos um bom retrato de como era a vida no Brasil em seu tempo. Mas seu valor não se resume ao campo histórico, mas também à grande qualidade literária. É considerado o maior poeta barroco da língua portuguesa.

Escrito por Ajosé1150 às 18h41
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Características do Barroco

Podemos, de modo geral, definir como principais características do Barroco na literatura o culto do contraste, o pessimismo e o caráter moralista - a literatura era um instrumento dos religiosos para educar e "pregar". Sem encontrar explicações racionais para o mundo e com o fortalecimento da igreja católica, o século XVII retomou a religiosidade do período medieval e o antropocentrismo do século XVI, levando o pensamento humano a oscilar entre dois pólos opostos: Deus e o homem; espírito e matéria; céu e terra. Ao aproximar e relacionar idéias e sentimentos ou sensações contraditórias entre si, o Barroco reflete esse desequilíbrio e tensão. Essa estética recebe nomes diferentes em outros países. Na Espanha, é Gongorismo, proveniente do poeta Luís Gôngora y Argote. Na Itália, chama-se Marinismo, devido à influência de Gianbattista Marini. Na Inglaterra, o romance Euphues ou The Anatomy of Wit, de John Lyly, dá origem ao Eufuísmo. Na França, denomina-se Preciosismo, graças à forma rebuscada na corte de Luís XIV. Na Alemanha, é conhecido por Silesianismo, caracterizando os escritores da região da Silésia. Nessa estética, integrante do Período Colonial e sucessora do Quinhentismo, há um culto exagerado da forma. Na poesia, isso é feito através de malabarismos sintáticos e abuso de figuras, tais como metáforas, antíteses, paradoxos, metonímias, hipérboles, alegorias e simbolismos, resultando em um rebuscamento exagerado, a que os poetas do Arcadismo iriam se opor.

Para o artista barroco, efêmero e contingente, que deseja conciliar céu e terra, a duplicidade é a única atitude compatível, daí o uso de temas opostos: amor e dor, o erótico e o místico, o refinado e o grosseiro, o belo e o feio que se misturam, ressaltando o bizarro, e lembrando que a morte é o denominador comum de todas as aspirações humanas. Além das características portuguesas, o barroquismo brasileiro apresenta peculiaridades próprias. A visão nativista na poesia, por exemplo, pode ser considerada pitoresca pelo tipo de louvor que faz ao país. Na lírica amorosa, a mulher é retratada pela sua beleza e perigo, sendo ao mesmo tempo enaltecida e exorcizada.

Escrito por Ajosé1150 às 18h39
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Gregório de Matos - Leitura

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:

Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;

Com sua língua, ao nobre o vil decepa:

O velhaco maior sempre tem capa.

 

Mostra o patife da nobreza o mapa:

Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;

Quem menos falar pode, mais increpa:

Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

 

A flor baixa se inculca por tulipa;

Bengala hoje na mão, ontem garlopa,

Mais isento se mostra o que mais chupa.

 

Para a tropa do trapo vazo a tripa

E mais não igo, porque a Musa topa

Em apa, epa, ipa, opa, upa.

 

Escrito por Ajosé1150 às 18h38
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Gregório de Matos - Leitura

A cada canto um grande conselheiro,

Que nos quer governar cabana, e vinha, 

Não sabem governar sua cozinha,

E podem governar o mundo inteiro.

 

 

Em cada porta um freqüentado olheiro,

Que a vida do vizinho, e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,

Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

 

Muitos Mulatos desavergonhados,

Trazidos pelos pés os homens nobres,

Posta nas palmas toda a picardia.

 

Estupendas usuras nos mercados,

Todos, os que não furtam, muito pobres,

E eis aqui a cidade da Bahia.

 

Escrito por Ajosé1150 às 18h37
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Gregório de Matos - Leitura

A cada canto um grande conselheiro

Que nos quer governar cabana e vinha;

Não sabem governar sua cozinha

E podem governar o mundo inteiro.

 

Em cada porta um bem freqüente olheiro

Que a vida do vizinho e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha

Para o levar à praça e ao terreiro.

 

Muitos mulatos desavergonhados,

Trazidos sob os pés os homens nobres,

Posta nas palmas toda a picardia,

 

Estupendas usuras nos mercados,

Todos os que não furtam muito pobres:

E eis aqui a cidade da Bahia.

Escrito por Ajosé1150 às 18h33
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29/09/2005


          A partir de hoje estarei publicando análises de obras literárias, artigos, críticas, resenhas e depoimentos quaisquer que de uma forma ou de outra contribuirão para o enriquecimento literário daqueles que por aqui passarem. Falaremos, principalmente, de literatura, cinema e teatro.

 

Escrito por Ajosé1150 às 22h38
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Camões - Biografia

             Camões é considerado, até hoje, o maior poeta português. Contudo, pouco se sabe sobre sua vida. Foi, decerto, um homem do mundo, viajando por três continentes. Tenta-se reconstruir um pouco da vida do poeta através de suas cartas e versos. Pela sua cultura e por alguns outros vestígios encontrados por historiadores, supõe-se que tenha passado por Coimbra, embora não tenha estudado regularmente na universidade local. Ainda jovem, serviu ao exército em Ceuta, onde perdeu um olho. Morou ainda por muito tempo no Oriente, em Macau e em Moçambique. Salvou-se a nado de um naufrágio na costa de Goa; supostamente, além de sua vida, também teria salvo os originais de Os Lusíadas. Voltou a Lisboa, onde viveu miseravelmente até a sua morte. 

Camões sintetizou em suas obras todas as temáticas e formas da cultura clássica, que se encontravam esparsas na literatura portuguesa. Além disso, imprimiu em todos os seus versos, tanto os históricos quanto os amorosos, a sua vivência pessoal, que não foi a vivência de um homem comum, mas de alguém de vasta cultura e temperamento de homem de ação.  Alguns de seus poemas líricos foram publicados ainda em vida, espalhados em outras obras, mas só foram reunidos em Rimas, quinze anos após sua morte. Nele, aparece o amor idealizado e inatingível, mas também a paixão carnal.  Já o épico Os Lusíadas foi publicado em 1572, rendendo ao poeta fama imediata e uma pensão vitalícia - que raramente chegou a suas mãos. Inspirado na Eneida de Virgílio, buscou imortalizar as glórias do Império Português em 1102 estrofes, rimas em disposição ab-ab-ab-cc e versos decassílabos heróicos e sáficos.

Escrito por Ajosé1150 às 22h36
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Estátua de Camões em Lisboa

Escrito por Ajosé1150 às 21h12
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Camões - Classicismo

O renascimento foi um vasto movimento cultural que surgiu na Europa em fins da Idade Média e que objetivou fazer reviver os ideais da antiguidade clássica nas artes, na literatura e na cultura. Foi, portanto, uma continuação do humanismo, com objetivos mais definidos. À luz dessas idéias, inicia-se, no século XVI, o movimento literário chamado classicismo. O homem, com sua razão e busca da arte universal, torna-se o centro de tudo em contra posição ao período anterior, Idade Média, em que a sociedade estava voltada para Deus e os valores espirituais.

 

Características do Classicismo

 

·      Imitação dos autores clássicos gregos e romanos da antiguidade.

·        Predomínio da razão sobre os sentimentos: a linguagem clássica não é subjetiva nem impregnada de sentimentalismo e das figuras, porque procura coar, através da razão, todos os dados fornecidos pela natureza e, desta forma, expressar verdades universais.

·        Uso de uma linguagem sóbria, simples, sem excessos de figuras literárias.

·        Idealismo: os clássicos  abordam o homem ideal, liberto de suas necessidades diárias, comuns. Os personagens centrais das epopéias são-nos apresentados como seres superiores, verdadeiros semideuses, sem defeitos.

·        Amor platônico: os poetas clássicos revivem a idéia de Platão de que o amor deve ser sublime, elevado, espiritual, puro, não-físico.

·        Busca da universalidade e impessoalidade: a obra clássica torna-se a expressão de verdades universais, eternas, e desprezado particular, o individual, aquilo que é relativo.

Escrito por Ajosé1150 às 19h03
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Camões - Leitura

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
 
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
 
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
 
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
 

Escrito por Ajosé1150 às 18h59
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Camões - Leitura

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
 
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
 
Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,
 
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

Escrito por Ajosé1150 às 18h57
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Camões - Leitura

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.
 
Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.
 
Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
 
Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

 

Escrito por Ajosé1150 às 18h56
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